
Gases, estufamento, barriga inchada, dor abdominal e diarreia são sintomas muito comuns, mas nem sempre têm uma causa óbvia nos exames de rotina. Em alguns casos, o teste respiratório pode ajudar a investigar condições como SIBO, IMO, intolerância à lactose e intolerância à frutose.
Esse exame não deve ser pedido de forma automática para todo paciente com desconforto intestinal. Ele faz mais sentido quando existe uma suspeita clínica bem definida e quando o resultado pode mudar a conduta.
O teste respiratório é um exame não invasivo que mede gases eliminados pela respiração, principalmente hidrogênio e metano, após a ingestão de um substrato específico.
Esse substrato pode ser, por exemplo:
A lógica é simples: quando certos carboidratos não são bem absorvidos ou são fermentados por microrganismos em excesso, ocorre produção de gases. Parte desses gases passa para o sangue e é eliminada pelos pulmões, podendo ser medida no ar expirado.
O teste respiratório pode ajudar a investigar causas de sintomas digestivos persistentes, especialmente quando o paciente apresenta:
Ele pode ser útil na avaliação de SIBO, IMO, intolerância à lactose e intolerância à frutose. Também pode ajudar a diferenciar má absorção verdadeira de hipersensibilidade intestinal, quando o paciente sente sintomas mesmo sem aumento significativo dos gases no exame.
O teste respiratório pode ajudar no diagnóstico de SIBO, mas ele não deve ser interpretado sozinho.
SIBO significa supercrescimento bacteriano no intestino delgado. Isso acontece quando há aumento excessivo de bactérias em uma região onde elas não deveriam estar em grande quantidade.
Os sintomas podem incluir:
O teste respiratório para SIBO geralmente usa glicose ou lactulose e avalia se há aumento precoce de hidrogênio e/ou metano. Diretrizes internacionais consideram a elevação de hidrogênio durante o teste um dado importante, e a presença de metano também deve ser valorizada, especialmente em pacientes com constipação.
A diferença está no substrato ingerido e na pergunta clínica que o exame tenta responder.
| Tipo de teste | Substrato usado | O que investiga |
|---|---|---|
| Teste para SIBO | Glicose ou lactulose | Fermentação precoce no intestino delgado |
| Teste para IMO/metano | Glicose ou lactulose | Produção aumentada de metano, muitas vezes associada à constipação |
| Teste da lactose | Lactose | Má digestão ou intolerância à lactose |
| Teste da frutose | Frutose | Má absorção ou intolerância à frutose |
Um ponto importante: quando existe suspeita de SIBO, muitas vezes é melhor investigá-lo antes de concluir que o problema é lactose ou frutose. Isso porque o supercrescimento bacteriano pode interferir no resultado dos testes de carboidratos e gerar interpretações equivocadas.
Porque sintomas como gases, estufamento e diarreia se repetem em várias condições diferentes.
Uma pessoa com barriga inchada pode ter SIBO, intolerância à lactose, má absorção de frutose, síndrome do intestino irritável, constipação, disbiose, doença celíaca, doença inflamatória intestinal ou hipersensibilidade visceral.
No estudo usado como base para este artigo, os sintomas antes do exame não conseguiram prever com segurança quem teria teste positivo para SIBO, lactose ou frutose. Ou seja: dois pacientes com sintomas muito parecidos podem ter causas completamente diferentes.
É por isso que a investigação precisa ser individualizada.
O exame costuma seguir estas etapas:
O tempo total varia conforme o tipo de teste, mas geralmente dura de 2 a 3 horas, podendo ser mais longo em alguns protocolos.
O preparo é uma das partes mais importantes. Dieta inadequada, uso recente de antibióticos, laxantes, tabagismo ou atividade física durante o exame podem interferir no resultado.
Hidrogênio e metano são gases produzidos por microrganismos intestinais durante a fermentação.
O hidrogênio costuma estar relacionado à fermentação de carboidratos e pode aparecer em SIBO ou má absorção de lactose/frutose.
O metano está mais relacionado a microrganismos chamados arqueias, e não exatamente bactérias. Quando há produção aumentada de metano, o quadro pode ser chamado de IMO, ou supercrescimento metanogênico intestinal.
Na prática, isso importa porque alguns pacientes não produzem muito hidrogênio, mas produzem metano. Se o exame mede apenas hidrogênio, parte dos casos pode passar despercebida.
Não. O teste respiratório é útil, mas não é perfeito.
Ele pode ter falso positivo ou falso negativo. O resultado depende do tipo de substrato, do tempo de trânsito intestinal, do preparo, da técnica de coleta e da interpretação médica.
Além disso, um teste positivo não significa automaticamente que todos os sintomas vêm daquele achado. E um teste negativo não significa que “não há nada”.
Por isso, o resultado precisa ser interpretado junto com:
Vários quadros podem causar sintomas parecidos.
Pode causar dor abdominal, gases, estufamento, diarreia, constipação ou alternância entre os dois. É uma condição relacionada ao eixo intestino-cérebro e à sensibilidade intestinal.
Acontece quando há dificuldade de digerir a lactose, o açúcar do leite. Pode causar gases, diarreia, cólicas, náuseas e estufamento. O teste respiratório com hidrogênio pode ser usado para confirmar a má absorção de lactose.
Pode provocar gases, dor abdominal, distensão e diarreia, especialmente após consumo de frutas, mel, sucos, doces ou alimentos ricos em frutose.
Muita gente associa barriga inchada apenas a “gases”, mas fezes acumuladas e evacuação incompleta também podem causar distensão abdominal importante.
Pode causar diarreia, distensão, anemia, perda de peso ou sintomas mais discretos. Deve ser lembrada em quadros persistentes.
Pode causar diarreia crônica, dor abdominal, sangue nas fezes, perda de peso e alterações laboratoriais.
O intestino pode estar mais sensível aos estímulos normais, gerando dor, estufamento e desconforto mesmo sem grande produção de gases.
O tratamento depende do diagnóstico.
Se o resultado sugerir SIBO ou IMO, a conduta pode envolver tratamento medicamentoso, ajustes alimentares, cuidado com constipação, avaliação da motilidade intestinal e investigação de fatores que favorecem recorrência.
Se o exame sugerir intolerância à lactose, o tratamento pode incluir ajuste individual da ingestão de lactose, uso de enzima lactase em situações específicas e cuidado para não restringir cálcio e outros nutrientes sem necessidade.
Se houver má absorção de frutose, a orientação alimentar precisa ser individualizada. Nem sempre é necessário cortar todas as frutas. Muitas vezes, o mais importante é entender quantidade, combinação dos alimentos e tolerância pessoal.
Se o exame for negativo, mas os sintomas forem importantes, a investigação deve continuar. O foco pode ser síndrome do intestino irritável, constipação, hipersensibilidade visceral, dissinergia evacuatória, doença celíaca, inflamação intestinal ou outras causas.
Procure avaliação se você apresenta:
Também é importante procurar atendimento se houver sinais de alarme, como perda de peso sem explicação, sangue nas fezes, anemia, febre, vômitos persistentes, diarreia noturna ou início recente dos sintomas após os 50 anos.
Não. É um exame não invasivo. O paciente sopra em intervalos programados após ingerir o substrato indicado.
Sim. O teste respiratório pode ajudar a confirmar má absorção de lactose, principalmente quando os sintomas aparecem após leite e derivados.
Ele pode ajudar a identificar má absorção de frutose e, quando associado aos sintomas durante o exame, pode apoiar o diagnóstico de intolerância à frutose.
Não. SIBO é supercrescimento de microrganismos no intestino delgado. Intolerância à lactose é dificuldade de digerir lactose. Os sintomas podem ser parecidos, mas o tratamento não é necessariamente o mesmo.
O ideal é que o exame seja indicado após avaliação clínica. Isso evita exames desnecessários e ajuda a escolher o substrato correto.
Nem sempre. O tratamento depende do tipo de alteração, dos sintomas, do contexto clínico e dos fatores associados. O resultado isolado não deve ser tratado sem interpretação médica.
Dra. Letícia Couto é gastroenterologista em Goiânia. Atua na investigação e acompanhamento de sintomas digestivos persistentes, como distensão abdominal, gases, diarreia, constipação, síndrome do intestino irritável, SIBO, intolerâncias alimentares e disbiose intestinal, com foco em avaliação individualizada e baseada em evidências.

Se você convive com gases, estufamento, diarreia, constipação ou desconforto intestinal persistente, uma avaliação cuidadosa pode ajudar a entender o que está por trás dos sintomas e definir se o teste respiratório faz sentido no seu caso.
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