
Por Dra. Letícia Couto, gastroenterologista em Goiânia | CRM-GO 24609 | RQE 19149 | Revisado em setembro de 2026
“Doutora, eu tenho gastrite.” Essa é uma das frases que mais escuto no consultório. Muita gente chama qualquer dor ou queimação no estômago de gastrite. Mas os estudos mostram uma coisa que surpreende: a gastrite é muito comum, geralmente não causa sintomas, e boa parte das dores de estômago tem outra explicação. Neste guia, explico o que é gastrite de verdade, as causas, os sintomas, o que significa “gastrite enantematosa” no laudo da endoscopia e como é o tratamento.
Resumo rápido
Gastrite é a inflamação da mucosa do estômago, a camada que reveste o órgão por dentro. Essa inflamação só pode ser confirmada com certeza quando um pedacinho da mucosa, a biópsia, é analisado no microscópio.
Aqui está a primeira grande confusão: no dia a dia, a palavra “gastrite” virou sinônimo de qualquer desconforto no estômago. Mas sintoma no estômago não é o mesmo que inflamação no estômago. Uma pessoa pode ter gastrite na biópsia e não sentir nada, e outra pode ter muita dor com o estômago totalmente saudável.
Dois estudos feitos na população geral, com pessoas com e sem sintomas que fizeram endoscopia, mostram bem isso:
4 em 10
adultos tinham gastrite na biópsia, e a maioria não tinha sintomas
30% a 50%
das inflamações e úlceras foram encontradas em pessoas sem nenhum sintoma de estômago
só 1 em 10
tinha a endoscopia totalmente normal, com ou sem sintomas
Dados de Zuzek et al., 2024 (Suécia, 368 adultos) e Johnsen et al., 1991 (Noruega, 619 adultos).
Na prática, isso quer dizer que encontrar gastrite em um exame não explica, sozinho, os seus sintomas. Os autores do estudo mais recente concluem que os médicos, em geral, não devem atribuir os sintomas à gastrite vista na biópsia.
No estudo sueco, entre as pessoas que tinham gastrite, estes foram os tipos encontrados:
Tipos de gastrite encontrados na biópsia
No Brasil, a infecção pelo H. pylori é mais comum que em países como a Suécia, então essa proporção pode ser diferente por aqui. Veja o que cada tipo significa:
Gastrite pelo H. pylori
Causada por uma bactéria que vive no estômago. É a mais importante, porque pode levar a úlceras e aumenta o risco de câncer de estômago. Por isso, sempre deve ser tratada. Saiba mais sobre o H. pylori.
Gastrite reativa ou química
Uma agressão à mucosa por anti-inflamatórios, álcool ou refluxo de bile do intestino para o estômago. Costuma melhorar quando a causa é retirada.
Gastrite autoimune
O próprio organismo ataca as células do estômago. Pode causar falta de vitamina B12 e anemia, e precisa de acompanhamento.
Crônica, sem H. pylori
Uma inflamação leve e antiga, sem a bactéria. Muitas vezes não tem uma causa clara e não precisa de tratamento específico.
Cada tipo costuma aparecer em uma região diferente do estômago, o que ajuda o patologista a identificar a causa na biópsia:

Os sintomas que as pessoas costumam associar à gastrite são:
O problema é que esses sintomas são os mesmos da dispepsia, e na maioria das vezes não são causados pela gastrite. No estudo sueco, quem tinha gastrite não teve mais sintomas do que quem tinha o estômago normal. A única associação encontrada foi entre um tipo específico, a gastrite crônica no corpo do estômago sem H. pylori, e dor na boca do estômago. Mesmo assim, os autores dizem que esse achado ainda precisa ser confirmado.
É um dos termos mais buscados, mas não é um diagnóstico médico. Quando alguém tem dor, queimação ou estufamento no estômago que pioram com o estresse, e a endoscopia não mostra uma causa que explique, o nome correto costuma ser dispepsia funcional.
Na dispepsia funcional, o estômago não está doente, mas funciona e sente de um jeito diferente. Ele pode esvaziar mais devagar, relaxar menos depois das refeições e ficar mais sensível. A comunicação entre o intestino e o cérebro tem um papel importante, por isso a ansiedade e o estresse pioram tanto os sintomas. O tratamento é diferente do tratamento da gastrite, e é por isso que tanta gente trata “gastrite” por anos sem melhorar.
Entenda mais sobre a gastrite nervosa e o que fazer quando a ansiedade ataca o estômago.
Sinais de alarme: procure avaliação logo
O diagnóstico começa na consulta, com a história dos sintomas, os remédios em uso e os sinais de alarme. Os principais exames são:
“Gastrite enantematosa” no laudo: devo me preocupar?
Enantema quer dizer vermelhidão. É uma descrição do que o médico viu na endoscopia, muito comum nos laudos, principalmente como “gastrite enantematosa leve”.
Esse aspecto visual nem sempre corresponde a inflamação quando a biópsia é analisada, e não explica, sozinho, os sintomas. O que mais importa é o resultado da biópsia, principalmente se há H. pylori, e a avaliação dos seus sintomas na consulta.
O tratamento depende da causa, e não do nome “gastrite”:
H. pylori
Tratamento com uma combinação de antibióticos e remédio para o ácido, prescrito pelo médico. Depois, é preciso confirmar a cura com um novo exame, com pelo menos 4 semanas de intervalo.
Gastrite reativa
Rever o uso de anti-inflamatórios e reduzir o álcool. Quando o anti-inflamatório é indispensável, o médico avalia como proteger o estômago.
Gastrite autoimune
Acompanhar e repor a vitamina B12 e o ferro quando faltarem, com endoscopias de controle quando indicado.
Sintomas de dispepsia
Remédios para reduzir o ácido por um período, ajustes nas refeições e cuidado com o eixo intestino-cérebro. O uso prolongado de remédio deve ser reavaliado.
Remédios como o omeprazol aliviam os sintomas, mas não devem ser usados por conta própria por longos períodos. Leia mais sobre o uso prolongado de inibidores de bomba de prótons.
Não existe uma dieta que cure a gastrite. A alimentação ajuda a controlar os sintomas, e o que incomoda varia muito de pessoa para pessoa. Algumas orientações costumam ajudar:
Cortar grupos inteiros de alimentos sem orientação raramente resolve e pode empobrecer a dieta.
A grande maioria das gastrites não vira câncer. O risco maior está na gastrite pelo H. pylori que dura muitos anos, porque ela pode levar a alterações na mucosa, como atrofia e metaplasia intestinal, que aumentam o risco de câncer de estômago. Tratar o H. pylori reduz esse risco. A gastrite autoimune também merece acompanhamento. Por isso, o tipo de gastrite importa mais que o nome.
Na maioria dos casos, sim. A gastrite pelo H. pylori melhora depois que a bactéria é eliminada, e a gastrite reativa melhora quando a causa, como o anti-inflamatório, é retirada. A gastrite autoimune não tem cura, mas é controlada com acompanhamento. E, se o seu desconforto for dispepsia funcional, ele também tem tratamento, só que diferente.
Muitas vezes, nenhum. Quando existem, são dor ou queimação na boca do estômago, sensação de estômago cheio, saciedade rápida, estufamento e náusea. Esses sintomas também são comuns na dispepsia funcional, que não é gastrite.
Não é um diagnóstico médico. Na maioria das vezes, o que as pessoas chamam de gastrite nervosa é a dispepsia funcional, em que o estômago fica mais sensível e o estresse piora os sintomas.
Geralmente não. Enantema quer dizer vermelhidão vista na endoscopia. É um achado comum, que nem sempre corresponde a inflamação na biópsia. O mais importante é saber se há H. pylori.
Na maioria dos casos, sim. A gastrite pelo H. pylori melhora com o tratamento da bactéria, e a gastrite reativa melhora quando a causa é retirada. A autoimune é controlada com acompanhamento.
A maioria não. O risco maior está na gastrite pelo H. pylori de longa duração, e tratar a bactéria reduz esse risco.
A endoscopia com biópsia. A pesquisa de H. pylori também pode ser feita pelo teste respiratório com ureia ou pela pesquisa de antígeno nas fezes.
Não existe uma dieta que cure gastrite. Refeições menores, menos álcool, parar de fumar e evitar os alimentos que pioram os seus sintomas costumam ajudar.

Se você tem dor, queimação ou desconforto no estômago, ou recebeu um laudo de gastrite e não sabe o que ele significa, uma consulta ajuda a descobrir a causa real e o tratamento certo.
Atendo em consultório particular em Goiânia.
Veja também: refluxo gastroesofágico e barriga estufada: o que pode ser.
Este conteúdo é informativo e não substitui uma consulta médica.

Dra. Letícia Couto – Gastroenterologista
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