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Síndrome do intestino irritável (SII): sintomas, causas e tratamento

Ilustração do intestino com sinais de dor representando a síndrome do intestino irritável

Por Dra. Letícia Couto, gastroenterologista em Goiânia | CRM-GO 24609 | RQE 19149 | Revisado em setembro de 2026

A síndrome do intestino irritável (SII) é um distúrbio do funcionamento do intestino que causa dor ou desconforto abdominal junto com mudanças no jeito de evacuar: diarreia, intestino preso ou os dois alternando. Muita gente também sente barriga estufada e gases.

É um dos diagnósticos mais comuns no consultório de gastroenterologia. Um grande estudo da Fundação Roma, feito pela internet em 24 países, encontrou SII em cerca de 4 a cada 100 adultos. Ela é quase duas vezes mais comum em mulheres e aparece mais entre os 18 e os 39 anos. Os sintomas são reais, atrapalham a rotina e têm tratamento.

Resumo rápido

  • SII é dor ou desconforto na barriga ligado à evacuação, com diarreia, intestino preso ou os dois.
  • O intestino fica mais sensível e se comunica de um jeito alterado com o cérebro. Os exames costumam vir normais.
  • O diagnóstico é feito pelos sintomas, com os critérios de Roma V (2026), e alguns exames escolhidos caso a caso.
  • SIBO, intolerâncias alimentares e doença celíaca podem imitar a SII. Em alguns casos o teste respiratório ajuda a separar uma coisa da outra.
  • O tratamento combina alimentação, medicamentos e cuidado com o eixo intestino-cérebro, de acordo com o tipo de SII.

O que é a síndrome do intestino irritável?

A SII faz parte dos chamados distúrbios da interação intestino-cérebro. Isso quer dizer que o intestino não tem uma lesão visível, mas funciona de um jeito diferente.

Uma comparação ajuda: imagine um alarme de casa muito sensível, que dispara com o vento. A casa está inteira, mas o alarme reage demais. Na SII, o intestino reage de forma exagerada a estímulos comuns, como a comida, os gases e o estresse. O resultado é dor, cólica, estufamento e mudança no ritmo das evacuações.

Por isso a colonoscopia e os exames de sangue costumam vir normais. Isso não significa que o problema é “da cabeça” ou que não existe. Significa que a alteração está no funcionamento, e não na estrutura do intestino.

Sintomas da síndrome do intestino irritável

O sintoma central é a dor ou desconforto abdominal que se relaciona com a evacuação. Ela pode melhorar ou piorar depois de ir ao banheiro e costuma vir junto com mudança na frequência ou na consistência das fezes.

Outros sintomas comuns:

  • Barriga estufada, que costuma piorar ao longo do dia
  • Gases em excesso e ruídos na barriga
  • Diarreia, principalmente depois das refeições ou pela manhã
  • Intestino preso, fezes duras ou em bolinhas
  • Sensação de que não evacuou tudo
  • Muco nas fezes
  • Urgência para ir ao banheiro

Muitas pessoas também notam sintomas fora do intestino, como cansaço, azia, sensação de estômago cheio, dor de cabeça e piora no período menstrual.

Uma característica típica é que os sintomas vão e voltam. Há semanas boas e semanas ruins, e as crises costumam aparecer em fases de estresse, noites mal dormidas, viagens ou mudanças na alimentação.

Tipos de SII

A SII é dividida de acordo com o tipo de fezes predominante nos dias com sintomas. Saber o tipo muda o tratamento.

  • SII com diarreia (SII-D): fezes amolecidas ou líquidas na maior parte das crises.
  • SII com constipação (SII-C): predominam fezes duras e dificuldade para evacuar. Veja também o artigo sobre intestino preso.
  • SII mista (SII-M): alterna períodos de diarreia e de intestino preso.
  • SII não classificada: quando o padrão não se encaixa bem em nenhum dos tipos.

O tipo pode mudar com o tempo. Uma pessoa com SII-C pode passar a ter um padrão misto anos depois, por exemplo.

O que causa a síndrome do intestino irritável?

Não existe uma causa única. Na maioria das pessoas, vários fatores se somam:

Intestino mais sensível

Quem tem SII sente com mais intensidade a distensão causada por gases e alimentos. Uma quantidade de gás que outra pessoa nem perceberia já causa dor e estufamento. Os médicos chamam isso de hipersensibilidade visceral.

Movimento do intestino alterado

O intestino pode se movimentar rápido demais, favorecendo a diarreia, ou devagar demais, favorecendo a constipação.

Eixo intestino-cérebro

O intestino e o cérebro conversam o tempo todo por nervos, hormônios e sinais do sistema imune. Ansiedade, estresse e noites mal dormidas mudam essa conversa e podem piorar os sintomas. Da mesma forma, um intestino desregulado também afeta o humor. Falo mais sobre isso no artigo sobre ansiedade e digestão.

Depois de uma infecção intestinal

Uma parte das pessoas começa a ter SII depois de uma gastroenterite, aquela infecção com diarreia e às vezes febre. É a chamada SII pós-infecciosa.

Microbiota intestinal

Alterações nas bactérias do intestino, a chamada disbiose, aparecem com frequência em quem tem SII. As bactérias influenciam a barreira que protege a parede do intestino, a defesa local do organismo e substâncias que elas mesmas produzem, como os ácidos graxos de cadeia curta e os ácidos biliares. Tudo isso conversa com o cérebro e pode mexer na dor, nos gases e no ritmo do intestino.

Isso ajuda a explicar por que certos pacientes pioram depois de antibióticos e por que alguns têm também supercrescimento bacteriano no intestino delgado (SIBO).

Alimentos

A comida não causa a SII, mas pode disparar os sintomas. Mais de 80% das pessoas com SII percebem piora relacionada a algum alimento. Frituras e comidas muito gordurosas, álcool, cafeína e refrigerantes são gatilhos frequentes. Outro grupo importante são os FODMAPs, um grupo de carboidratos que fermentam no intestino e produzem gases. Estão em alimentos como feijão, cebola, alho, trigo, leite, maçã e adoçantes como sorbitol.

Como é feito o diagnóstico da SII

O diagnóstico é feito principalmente na consulta, com uma boa conversa e o exame físico. O médico se baseia nos critérios de Roma, que foram atualizados em 2026 na versão Roma V.

Pelos critérios de Roma V, pensamos em SII quando há:

  • Dor ou desconforto abdominal que vai e volta, sem ser contínuo, em média pelo menos 3 dias por mês nos últimos 3 meses;
  • Junto com pelo menos 2 destes pontos: tem relação com a evacuação, vem com mudança na frequência das evacuações ou vem com mudança no formato das fezes;
  • Sintomas que começaram há pelo menos 6 meses.

Duas novidades do Roma V fazem diferença na prática. O desconforto voltou a contar, e não só a dor, o que ajuda quem sente a barriga incomodada sem chegar a doer. E a frequência mínima caiu de 1 dia por semana para 3 dias por mês. O consenso também lembra que, quando a dor aparece só no período menstrual, é preciso pensar em outras causas.

Outro ponto importante: a SII não é um diagnóstico de exclusão. Ela é reconhecida pelos sintomas, e os exames entram de forma selecionada para descartar doenças que podem parecer SII. Os mais usados são:

  • Hemograma e proteína C reativa, um marcador de inflamação no sangue
  • Exame de sangue para doença celíaca
  • Calprotectina fecal, quando há diarreia, para afastar doença inflamatória intestinal
  • Parasitológico de fezes e outros exames, conforme o caso
  • Colonoscopia, quando há sinais de alerta, pela idade ou, em quem tem diarreia, para investigar colite microscópica com biópsias

Na maioria das pessoas não é preciso fazer uma bateria enorme de exames. Um diagnóstico bem explicado já traz alívio, porque tira o medo de uma doença grave e permite focar no tratamento certo.

Sinais de alerta: quando não é só SII

Alguns sinais pedem investigação mais cuidadosa, porque podem indicar outra doença. Procure um médico se tiver:

  • Sangue nas fezes
  • Perda de peso sem explicação
  • Sintomas que acordam você à noite
  • Anemia ou febre
  • Início dos sintomas depois dos 45 anos
  • Histórico na família de câncer de intestino, doença inflamatória intestinal ou doença celíaca
  • Diarreia que não melhora ou piora progressiva

SII, SIBO e intolerâncias: por que é tão fácil confundir

Estufamento, gases, diarreia e dor depois de comer aparecem em várias condições diferentes. Por isso, muita gente passa anos tratando SII quando parte do problema é outra coisa, ou tem mais de uma condição ao mesmo tempo.

  • SIBO: excesso de bactérias no intestino delgado, que fermentam a comida cedo demais e produzem muito gás. Aparece mais ligado à SII com diarreia. Entenda o que são SIBO e IMO, sintomas e tratamento.
  • Excesso de metano (IMO): alguns microrganismos produzem metano, um gás que deixa o intestino mais lento. Aparece mais ligado à SII com constipação e ao estufamento.
  • Intolerância à lactose e à frutose: causam gases, dor e diarreia depois de certos alimentos. Veja como saber se você tem intolerância à lactose.
  • Doença celíaca: reação ao glúten que lesa o intestino e pode imitar a SII. Por isso é investigada de rotina. Leia mais sobre doença celíaca.

Quando o teste respiratório de hidrogênio e metano ajuda

O teste respiratório mede os gases que as bactérias do intestino produzem depois que você bebe uma solução com açúcar. É simples, não usa agulha e é feito soprando em um aparelho em intervalos regulares.

O consenso Roma V não recomenda fazer o teste de rotina em todas as pessoas com SII logo na primeira avaliação, porque o exame tem limitações e nem sempre muda o tratamento. Na prática, ele entra em situações selecionadas, quando o resultado pode ajudar a decidir o próximo passo. Por exemplo, quando há:

  • Estufamento e gases muito intensos, que não melhoram com as medidas iniciais
  • Diarreia ou padrão misto com piora clara depois das refeições
  • Intestino preso com muito estufamento, pela suspeita de excesso de metano
  • Suspeita de intolerância à lactose ou à frutose
  • Fatores de risco para SIBO, como cirurgia no abdome ou uso prolongado de omeprazol e outros IBPs

Nesses casos, o resultado ajuda a escolher um tratamento mais direcionado, sempre interpretado junto com os sintomas. Entenda quando o teste respiratório é indicado e como é a preparação.

Tratamento da síndrome do intestino irritável

Não existe um remédio único que resolva a SII para todo mundo. O tratamento é montado de acordo com o tipo de SII, os sintomas que mais incomodam e a rotina de cada pessoa. Normalmente ele combina algumas frentes:

1. Entender o diagnóstico

Parece simples, mas faz diferença. Quando a pessoa entende o que acontece no próprio intestino, o medo diminui e os sintomas costumam melhorar. A confiança entre paciente e médico também faz parte do tratamento.

2. Alimentação

  • Rotina: refeições em horários regulares, comendo devagar, sem pular refeições nem comer grandes volumes de uma vez.
  • Menos gatilhos: reduzir frituras e comidas muito gordurosas, álcool, cafeína e refrigerantes costuma ajudar.
  • Fibra solúvel: o psyllium tem boa evidência de benefício na SII, principalmente com constipação. Já o farelo de trigo não mostrou benefício e pode piorar os gases. Na SII com constipação, o kiwi verde também é uma boa opção de fruta.
  • Dieta baixa em FODMAPs: é a estratégia alimentar com mais evidência na SII, mas não é para a vida toda. Ela é feita em três fases: retirar os alimentos por algumas semanas, reintroduzir aos poucos e manter só as restrições necessárias. O ideal é fazer com acompanhamento de nutricionista.
  • Outras opções: a dieta mediterrânea e dietas com menos amido e açúcar têm mostrado resultados promissores.
  • Cuidado com restrições exageradas: cortar muitos alimentos por conta própria pode empobrecer a dieta e prejudicar a microbiota.

3. Medicamentos

A escolha depende do tipo de SII e deve ser feita com o médico. Entre as opções estão:

  • Antiespasmódicos, incluindo o óleo de hortelã-pimenta, para cólica e dor
  • Medicamentos para diarreia ou para constipação, conforme o padrão
  • Moduladores do eixo intestino-cérebro, em doses baixas, que diminuem a sensibilidade do intestino. Eles são usados para dor, e não como tratamento de depressão.
  • Antibiótico de ação intestinal, em casos selecionados, principalmente com diarreia, estufamento ou SIBO confirmado

4. Probióticos

Alguns pacientes melhoram, mas o efeito depende muito da cepa usada, e a qualidade dos estudos ainda é variada. Por isso não existe um probiótico que sirva para todo mundo com SII. Se for testar, o ideal é escolher com orientação, usar por algumas semanas e suspender se não houver melhora.

5. Cuidar do eixo intestino-cérebro

Atividade física regular, sono de qualidade e manejo do estresse ajudam a acalmar o intestino. Atividades leves e moderadas, como caminhada, yoga e bicicleta, costumam ser mais bem toleradas do que exercícios muito intensos. Terapias psicológicas voltadas para o intestino, como a terapia cognitivo-comportamental e a hipnoterapia, têm boa evidência na SII. Elas não significam que o problema é emocional. Elas ajudam a regular a comunicação entre intestino e cérebro.

Em muitos casos, o melhor resultado vem de um cuidado conjunto com nutricionista e psicólogo. Falo sobre isso no artigo sobre equipe multiprofissional.

Síndrome do intestino irritável tem cura?

A SII é uma condição crônica, com fases melhores e piores. O objetivo do tratamento é controlar os sintomas para que eles deixem de comandar a rotina. Com o acompanhamento certo, a maioria das pessoas consegue voltar a comer fora, viajar e trabalhar sem ficar pensando no intestino o tempo todo.

Uma informação importante: a SII não aumenta o risco de câncer e não se transforma em outra doença.

Perguntas frequentes sobre síndrome do intestino irritável

SII é uma doença emocional?

Não. A SII é uma alteração no funcionamento do intestino e na comunicação dele com o cérebro. O estresse e a ansiedade podem piorar os sintomas, mas não são a única causa.

Qual exame confirma a síndrome do intestino irritável?

Não existe um exame único. O diagnóstico é feito pelos sintomas, com os critérios de Roma V, e alguns exames são feitos para descartar outras doenças, como doença celíaca e doença inflamatória intestinal.

Qual a diferença entre SII e SIBO?

SII é um diagnóstico baseado nos sintomas. SIBO é o excesso de bactérias no intestino delgado, investigado com o teste respiratório. As duas podem acontecer juntas, e tratar o SIBO pode melhorar parte dos sintomas da SII.

Quem tem SII precisa cortar glúten e lactose?

Não necessariamente. Primeiro é importante investigar doença celíaca e intolerância à lactose. Cortar alimentos sem orientação pode atrapalhar o diagnóstico e deixar a dieta pobre.

Probiótico ajuda na SII?

Pode ajudar algumas pessoas, mas o efeito depende da cepa e varia muito. Vale testar por algumas semanas com orientação e parar se não houver melhora.

SII pode virar câncer?

Não. A SII não aumenta o risco de câncer de intestino. Mesmo assim, sinais de alerta como sangue nas fezes e perda de peso precisam ser investigados.

Síndrome do intestino irritável tem cura?

É uma condição crônica, mas controlável. Com tratamento, a maioria das pessoas tem uma melhora importante dos sintomas e da qualidade de vida.

Qual médico trata síndrome do intestino irritável?

O gastroenterologista é o especialista indicado para diagnosticar e tratar a SII, muitas vezes em conjunto com nutricionista e psicólogo.

Avaliação com gastroenterologista em Goiânia

Consultório da Dra. Letícia Couto, gastroenterologista em Goiânia

Se a dor, o estufamento ou as mudanças no intestino já fazem parte da sua rotina, uma avaliação ajuda a confirmar o diagnóstico, descartar outras causas e montar um tratamento para o seu tipo de SII.

Atendo em consultório particular em Goiânia e realizo o teste respiratório de hidrogênio e metano.

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Este conteúdo é informativo e não substitui uma consulta médica.

Referências

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Dra. Letícia Couto – Gastroenterologista
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