
Por Dra. Letícia Couto, gastroenterologista em Goiânia | CRM-GO 24609 | RQE 19149 | Revisado em setembro de 2026
Azia, queimação subindo pelo peito, gosto amargo na boca, pigarro que não passa. O refluxo gastroesofágico é um dos problemas digestivos mais comuns, e também um dos mais mal compreendidos. Neste guia, explico o que é a doença do refluxo gastroesofágico (DRGE), por que ela acontece, os sintomas, quando procurar ajuda, como é feito o diagnóstico e o que realmente funciona no tratamento.
Resumo rápido
O esôfago é o tubo que leva o alimento da boca até o estômago. Na passagem entre os dois existe uma “válvula”, o esfíncter esofágico inferior, que junto com o músculo do diafragma funciona como uma barreira. Ela abre para o alimento descer e fecha para o conteúdo do estômago não voltar.
O refluxo acontece quando o conteúdo do estômago, com ácido e outras substâncias, volta para o esôfago. Todo mundo tem um pouco de refluxo, principalmente depois de refeições grandes. A diferença está na frequência e no incômodo:
Refluxo ocasional
Normal
Acontece de vez em quando, geralmente depois de exageros, e passa sozinho.
Doença do refluxo (DRGE)
Precisa de cuidado
Os sintomas são frequentes e atrapalham a rotina, ou o refluxo causa lesões no esôfago.
A doença do refluxo não tem uma causa única. Ela surge de um desequilíbrio entre o que protege o esôfago e o que empurra o conteúdo do estômago para cima. Cada número da imagem corresponde a um desses fatores:

1. Válvula que relaxa
A válvula relaxa por alguns segundos sem que a pessoa engula, principalmente quando o estômago está muito cheio depois de uma refeição grande.
2. Hérnia de hiato
Parte do estômago sobe acima do diafragma, enfraquece a barreira e funciona como um reservatório de ácido perto do esôfago.
3. Pressão na barriga
Excesso de peso, gravidez e doenças respiratórias com tosse crônica aumentam a pressão sobre o estômago e empurram o conteúdo para cima.
4. Estômago lento
Quando o estômago esvazia devagar, fica cheio por mais tempo e aumenta a chance de refluxo.
5. Limpeza do esôfago
Os movimentos do esôfago devolvem cerca de 90% do que refluiu, e a saliva neutraliza o ácido. À noite a saliva diminui, por isso o refluxo noturno costuma incomodar mais.
6. Esôfago sensível
Algumas pessoas sentem mais o refluxo, mesmo em pouca quantidade. Estresse, ansiedade e atenção constante aos sintomas aumentam essa percepção.
Esse último ponto explica por que a ansiedade pode piorar muito os sintomas, e por que nem todo mundo melhora só com remédio para o ácido.
Sintomas típicos
Sintomas fora do esôfago
Quando predominam os sintomas na garganta, sem azia, muita gente chama de “refluxo silencioso”. Esses sintomas podem ter várias outras causas, como rinite, alergias e problemas nas cordas vocais. Por isso, não dá para confirmar refluxo só por eles, nem pela melhora com o remédio.
Dor no peito: o refluxo pode causar uma dor muito parecida com a do coração. Por isso, a primeira coisa é descartar problema cardíaco. Dor no peito com falta de ar, suor frio ou dor no braço é emergência.
Sinais de alarme: procure avaliação logo
Nesses casos, a endoscopia é o primeiro exame e deve ser feita o quanto antes.
Hoje sabemos que a doença do refluxo não é uma coisa só. Ela tem apresentações diferentes, e isso muda o tratamento:
Esofagite erosiva
O ácido causa feridas no esôfago, vistas na endoscopia.
Refluxo não erosivo
Há refluxo e sintomas, mas a endoscopia é normal.
Hipersensibilidade ao refluxo
A quantidade de refluxo é normal, mas o esôfago sente demais.
Azia funcional
A queimação existe, mas não está ligada ao refluxo. O remédio para ácido costuma não ajudar.
Não existe um único exame padrão-ouro para o refluxo. O diagnóstico junta os sintomas, a resposta ao tratamento e, quando necessário, os exames. Na prática, o caminho costuma ser este:
Consulta
Avaliar os sintomas, os hábitos e se existem sinais de alarme.
Sintomas típicos, sem sinais de alarme
Pode ser feito um tratamento de teste por cerca de 8 semanas.
Se melhorar
Tentar suspender o remédio, com orientação.
Se não melhorar, ou se os sintomas voltarem
Fazer endoscopia, de preferência algumas semanas depois de parar o remédio.
Se a endoscopia for normal e ainda houver dúvida
Fazer a pHmetria ou a impedâncio-pHmetria, que medem o refluxo durante 24 horas ou mais, sem o remédio.
O raio-x contrastado do esôfago e a manometria não servem, sozinhos, para diagnosticar refluxo. A manometria é útil em outras situações, como antes de uma cirurgia.
A endoscopia também é indicada logo de início em quem tem sinais de alarme e em quem tem refluxo há muitos anos junto com vários fatores de risco para o esôfago de Barrett, uma alteração que precisa de acompanhamento.
Na maioria das pessoas, não. Mas o refluxo intenso e prolongado pode causar esofagite, estreitamento do esôfago e esôfago de Barrett, uma alteração nas células do esôfago que, em uma minoria dos casos, pode evoluir para câncer. Por isso, sintomas antigos e frequentes merecem avaliação, mesmo que você já esteja acostumado com eles.
Muitas orientações sobre refluxo circulam por aí, mas só algumas têm boa evidência. Estas são as que a diretriz americana de refluxo recomenda:
40%
menos sintomas frequentes em mulheres que perderam peso, em um estudo
44% x 18%
melhora dos sintomas em quem parou de fumar, comparado com quem continuou
até 6x
mais refluxo em pessoas com obesidade importante, comparadas a quem tem peso normal

Dormir do lado esquerdo também ajuda: deitar do lado direito aumenta o refluxo à noite e depois das refeições.
Alimentação: nem tudo é proibido
Não existe uma lista única de alimentos proibidos para quem tem refluxo. Álcool, cigarro, chocolate, hortelã e comidas gordurosas relaxam a válvula. Café, frutas ácidas e comidas apimentadas quase não mexem nela, mas podem irritar o esôfago de quem já está sensível.
Em um grande estudo, trocar duas porções de café, chá ou refrigerante por água esteve ligado a menos sintomas. O melhor caminho é observar o que piora os seus sintomas, e não cortar tudo.
Os remédios que reduzem a produção de ácido do estômago, os inibidores da bomba de prótons (a família do omeprazol), são a base do tratamento. Eles aliviam a azia e a regurgitação e cicatrizam a esofagite melhor que as outras opções. Alguns pontos importantes:
Não use remédio para refluxo por conta própria por longos períodos. Sintomas que exigem remédio todos os dias merecem avaliação.
Para casos selecionados, como quem tem esofagite grave, hérnia de hiato grande ou sintomas que não são controlados com o tratamento clínico, existem cirurgias e procedimentos que reforçam a barreira contra o refluxo. A indicação depende de exames que comprovem o refluxo e avaliem o funcionamento do esôfago. Em pessoas com obesidade, a cirurgia bariátrica do tipo bypass pode ser uma opção que trata os dois problemas.
Cerca de 2 em cada 3 gestantes têm azia, que pode começar em qualquer trimestre e costuma melhorar depois do parto. As mudanças no dia a dia são o primeiro passo, e qualquer remédio deve ser combinado com o obstetra ou o gastroenterologista.
Depende da causa. Muitas pessoas melhoram bastante, ou deixam de ter sintomas, com mudanças no dia a dia, principalmente com a perda de peso. Outras têm uma tendência que volta com o tempo e precisam de acompanhamento. Na hérnia de hiato grande ou na esofagite grave, a cirurgia pode ser a solução mais duradoura. O importante é entender qual é o seu tipo de refluxo para escolher o tratamento certo.
Os mais típicos são azia e regurgitação. O refluxo também pode causar rouquidão, pigarro, tosse seca, dor de garganta, dor no peito e desgaste dos dentes.
Muitas pessoas ficam sem sintomas com mudanças no dia a dia e tratamento. Outras precisam de acompanhamento contínuo. Em casos selecionados, a cirurgia pode ser a solução mais duradoura.
O lado esquerdo. Deitar do lado direito aumenta o refluxo à noite. Elevar a cabeceira da cama também ajuda quem tem sintomas noturnos.
Pode, mas esses sintomas também têm muitas outras causas. Por isso, a avaliação precisa descartar outras doenças antes de atribuir tudo ao refluxo.
Quando há sinais de alarme, quando os sintomas não melhoram com o tratamento ou voltam ao parar o remédio, e em quem tem refluxo há muitos anos com fatores de risco para esôfago de Barrett.
Algumas pessoas precisam, como quem tem esofagite grave. Mas o uso deve ser na menor dose eficaz e reavaliado com o médico, com tentativa de suspensão sempre que possível.
Pode piorar a percepção dos sintomas. O estresse e a ansiedade deixam o esôfago mais sensível e fazem a pessoa sentir mais o refluxo.

Se você tem azia, regurgitação ou sintomas na garganta com frequência, ou já usa remédio para refluxo há muito tempo, uma consulta ajuda a entender o seu tipo de refluxo e montar o tratamento certo.
Atendo em consultório particular em Goiânia.
Veja também: gastrite, barriga estufada: o que pode ser e por que consultar um gastroenterologista.
Este conteúdo é informativo e não substitui uma consulta médica.

Dra. Letícia Couto – Gastroenterologista
Especialista em saúde intestinal e disbioses. Atendimento humanizado, com investigação completa e plano personalizado para cada paciente.
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